O Poder Sutil da Jornada do Herói
o Soft Power Narrativo
Há algum tempo eu falei sobre a Jornada do Herói e mostrei o quanto ela é superestimada, seja por quem defende quanto por quem critica. A conversa aqui é outra, mas já deixo aqui a indicação desse texto. O que pretendo é, mais uma vez, fazer algumas provocações com esse assunto.
No último texto eu disse que a Jornada, da forma como é ensinada pelo Vogler, não deveria ser um manual, mas sim uma forma de “corrigir” roteiros para tornar eles mais comerciais. Ou seja, o autor nunca disse para você seguir passo a passo, personagem por personagem, ponto a ponto. As coisas pioraram quando decidiram pegar o manual do Vogler, que já é uma simplificação do Herói de Mil Faces, do Campbell, e decidiram simplificar ainda mais, criando aquele esquema circular que se ensina em todo curso de escrita criativa.
Gerou-se um mar de histórias clichês com personagens e plots parecidos, onde cada ponto se encaixa na mesma minutagem, nas mesmas páginas, tornando tudo muito previsível. Eu sei que o mentor vai sumir antes da batalha final pro jovem protagonista ter que lidar com o terrível vilão sozinho. Só que esse amontoado de clichês não é o único problema da Jornada do Herói. Ela representa uma forma de ver o mundo que já nasceu totalmente atrasada.
Um Pensamento Atrasado
Certa vez um linguista europeu decidiu estudar as línguas do seu continente de uma forma menos… de humanas (?) e mais de exatas. Ele estruturou o estudo das línguas, mudando totalmente o campo da Linguística dali por diante. Seu nome é Ferdinand de Saussure, e ele jamais imaginou que acabaria afetando não só a área de Letras, mas também de várias outras áreas humanas.
O Estruturalismo se tornou uma corrente filosófica que buscava compreender a humanidade diante de suas relações com uma estrutura maior. Essa corrente atingiu também a área da Teoria Literária. O russo Vladimir Propp foi um acadêmico estruturalista que estudou contos tradicionais da Rússia e analisou cada elemento narrativo, os mais simples, indivisíveis. Dessa forma, ele criou uma espécie de precursor da Jornada do Herói. Seus trabalhos influenciaram Joseph Campbell, um acadêmico norte-americano, escritor do livro “O Herói de Mil Faces”. Neste livro, Campbell estudou mitologias de todo o mundo, as comparou e buscou entender o que ele chamou de “monomito”, ou seja, um mito em comum a todas as civilizações.
Pense só: se a máquina do capitalismo percebesse que existe algo em comum por todo o planeta isso poderia ajudar a criar histórias facilmente identificáveis com todo o mundo, expandindo seu público. Foi isso que a Disney fez. Christopher Vogler, roteirista da Disney, criou um pequeno manual de roteiro baseado no monomito de Campbell, chamado de A Jornada do Herói. E esse negócio deu tão certo que logo toda Hollywood estava usando em seus filmes. Depois foi parar na TV. Então nos livros. Uma verdadeira infestação, uma praga se espalhando por qualquer área cultural que encontrasse.
Pode parecer que as críticas à Jornada do Herói surgiram aí, quando Hollywood tornou-se clichê e previsível de tanto usar essa estrutura narrativa. No entanto, as críticas já são antigas. Anteriores à própria Jornada.
O Poder Sutil
Voltando no tempo, os acadêmicos do que ficou conhecido como Pós-Estruturalismo já questionavam a existência de estruturas universais. Pensadores como Foucault e Jacques Derrida são exemplos disso. Para eles, o Estruturalismo ignorava a existência de outras culturas como também a existência do próprio indivíduo dentro do sistema estudado.
Joseph Campbell não encontrou um mito único compartilhado no mundo todo, ele sistematicamente ignorou as diferenças entre diversas culturas, focou maior parte dos seus esforços apenas na Europa e martelou na sua tese apenas o que cabia e fosse conveniente, ignorando o resto. Mas se essa universalidade não existe… por que se prega tanto isso? Ah… aí entra o poder sutil da Jornada do Herói.
A Jornada não é tão comercial por ser universal, mas porque foi enfiada goela abaixo em todo cidadão colonizado pelos Estados Unidos. Qualquer filme blockbuster, série de sucesso ou livro best-seller usa essa jornada. Ela se torna familiar não por ser universal, mas por ser repetida a ponto de parecer a mais correta. Ao ponto de, quando uma narrativa foge desse padrão, é considerada chata pela grande massa. Isso é uma forma de colonização mental, o soft power estadunidense.
Soft Power. Uma expressão que ainda vai ficar na boca da garotada, pode anotar isso aí. Justamente por isso prevejo que essa temporada 2026 da newsletter vai ter muitos outros textos abordando diferentes aspectos desse assunto. Em resumo, o poder militar e econômico de um país é considerado seu hard power. Poder bruto. Bélico, explícito, óbvio. Mas há também formas mais sutis de colonizar uma nação estrangeira sem necessariamente usar armas.
Veja as salas de cinema do Brasil. A maioria esmagadora dos filmes são estadunidenses. Pense nas séries que são assistidas aqui. Pense na literatura, um caso onde os Estragos Unidos só rivalizam com a Inglaterra. Nossa única fuga é na música, onde temos força total. Segundo o site Rollingstone, 75% das músicas tocadas no Brasil em 2025 eram de artistas nacionais. Somos o país latino que mais escuta a própria música. Justamente por isso não somos totalmente colonizados pelos norte americanos, ainda sobra espaço para músicas do resto da América Latina e agora Coréia do Sul também. Mas isso é só com música mesmo.
Quase toda a nossa base cultural passa pelos padrões norte americanos. Nosso modo de pensar, vestir, falar, andar, xingar, tudo é muito parecido com eles. Como se quiséssemos ser como eles. Ser eles.
Colonizados. Depois da independência do Brasil fomos colonizados por outra nação sem nem percebermos. Pense em quantos brasileiros apoiaram as taxações do Trump contra o Brasil. Ou quantos defenderam a interferência estadunidense na Venezuela e até pediram para que o mesmo acontecesse aqui. Para os Estados Unidos é tranquilo afetar a democracia de outra nação sem usar força bruta. Aí entra o poder sutil, o Soft Power. Ele faz até o mais patriota de patriotário ao ir contra a própria nação em detrimento de outra.
Nossa senhora, hein, Igor, tá problematizando uma simples estrutura de roteiro como responsável por um processo conspiratório de dominação cultural e lavagem cerebral de uma nação! É… mais ou menos isso aí mesmo kkkkk. Óbvio que não é tão simples assim, não é só a Jornada do Herói. Mas serve de anedota para perceber o quanto o nosso gosto pessoal não é pessoal, ele pode ser moldado pela interferência de interesses políticos externos.
O Jogo das Estruturas
Lembre-se, a Jornada do Herói enquanto estrutura de roteiro já nasceu em um mundo onde os Pós-Estruturalistas já criticavam essa visão de mundo. O Estruturalismo costuma ver as estruturas como elementos que rodeiam um centro fixo. Nesse caso, o centro seria a ideia de que existem verdades universais compartilhadas por toda a humanidade, e que todas as culturas podem ter algo em comum.
Nesse caso, o estudo de Campbell seria responsável por catalogar essa verdade universal e encontrar seu centro, o herói. Jacques Derrida vai questionar isso e dizer que as estruturas não possuem um centro, mas que jogam entre si com seus elementos. Ou seja, há diversos pontos em comum entre narrativas de diversos países ao redor do mundo, e isso não significa que haja algo em comum entre todos eles. Há um jogo, um eterno vai e vem, as trocas, as pequenas similaridades.
De forma resumida, a Jornada do Herói é, em essência, uma estrutura europeia, e serve muito bem aos Estragos Unidos por serem uma colônia europeia tanto quanto nós. Então por que questionar essa visão?
Você já ouviu falar em decolonialidade? Assunto complexo, fica pra outro texto. Em resumo, entendendo que nosso pensamento é colonizado pelo domínio europeu, é necessário questionar esse Soft Power a todo instante. Ainda mais quando este poder afeta a democracia do país onde você vive. É necessário pensar menos como europeu, e mais como brasileiro.
Agora vai ler algumas obras nacionais, vai. Não seja um patriotário.
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